A Mordida

Ontem meu filho foi mordido na escola, isso já havia acontecido antes, mas desta vez foi pior, não pela mordida em si, mas pelo sentimento que isso me causou.

Minha primeira reação foi:

-OK, isso pode acontecer com qualquer criança.

Ouvi opiniões diversas de amigos e parentes, alguns pensaram o mesmo que eu e outros ficaram mais chocados e horrorizados e isso me fez observar a situação por anglos diferentes do que aquele da minha primeira reação.

Na hora do jantar eu percebi que ele estava mais manhosinho, desejando mais minha presença do que de costume.

A noite foi bem agitada, mas a princípio atribui isso a outras coisas, dentes, gripe e outras coisas de baby desta idade.

Na manhã seguinte ele deu um certo trabalho para acordar, coisa que geralmente não acontece, já que ele acorda primeiro que o despertador e com a corda toda, mandei para escola e voltei a dormir (trabalhava de madrugada), até ai na minha cabeça estava tudo ok.

Então fui busca-lo na escola e ouvi da monitora “Mãe, hoje achei ele mais tristinho e manhosinho que de costume” e quando ele me viu seu sorriso foi diferente, foi um sorriso de alivio e então minha ficha caiu e neste momento foi como se o chão se abrisse sobre meus pés e por alguns segundos o mundo me engoliu e me cuspi-o de volta,  foi ai que  percebi, ele sentiu de fato o sentimento causado pela “agressão”, o medo, a dor e eu não estava lá para protegê-lo.

Bom com o peito apertado seguimos nossa rotina, fomos para casa da vó (ela fica 1 hora com ela dia sim, dia não) e novamente a despedida para o trabalho foi terrível e de novo atípica, o que só me provou que algo diferente estava acontecendo dentro de sua pequena cabecinha.

Minha vontade nesta hora é abandonar o mundo pra ficar com ele em casa protegido em meus braços , onde nada de ruim possa acontecer, onde ele possivelmente não terá contato com nenhum sentimento que não seja bons e reconfortantes , queria que o mundo parece de girar e que eu pudesse tirar de dentro dele este sentimento que está machucando, desejava que jamais isso tivesse acontecido, mas preciso trabalhar e não tenho como carregá-lo comigo para sempre, a dor e a culpa estão me consumindo e as mãos estão atadas.

E então eu pergunto:

– Como nós mães que optamos por uma criação com apego, disciplina positiva, podemos lidar com situações como está?

– Como decifrar que sentimento está dentro dele agora, como tirar ele de lá e reconstruir as estruturas de amor e carinho que tanto lutamos pra construir?

– Como lidar com a dor de mãe que quer enrolar seu filho em plástico bolha e proteger de qualquer coisa que possa machuca-lo fisicamente ou emocionalmente?

O desejo é de pedir a conta do serviço, tirar da escola e não tirar os olhos dele nunca mais são constantes nesse momento, mas não posso fazer. As lagrimas correm no meu rosto, uma dor sem consolo consumida por uma sociedade sem coração onde sentimentos de criança não são levados a sério e o sentimento de uma mãe são tratados como exagero e superproteção.

E só me resta uma certeza, durante a vida muitas coisas vão o ferir e na maioria das vezes eu não estarei com ele para evitar ou proteger, sendo assim, preciso torná-lo forte, mostrar para ele que sempre terá meus braços abertos para voltar, se aconchegar e secar suas lágrimas – ou chorar com ele –  e que sim, abraço de mãe cura toda a dor, que amor de mãe é insuperável, imensurável e imutável, usar da empatia para sua dor, pois o que doe nele certamente doí muito mais em nós, mas não podemos fazer nada para mudar, porque infelizmente filho não pode ser guardado no guarda roupas !!!        

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Karina Martinelli

Karina, 30 anos, moro em Campinas - SP, com meu marido Thiago e meu filho Pedro Augusto, 2 anos. Vivo uma constante mutação e isso que me impulsiona na vida, mudo de ideia como mudo de roupas e considero isso mais uma qualidade do que um defeito. mais?