Rabiscos antigos: Amanhã!

Data destes rabiscos: 04 de agosto de 2016, horário: das 02h01min37seg às 02h27min10seg. Obrigada WordPress pela precisão!

Durante esses meses eu evitei pensar em postar, não por não querer. Mas pq não se trata de sentar e escrever, mas de se colocar frente a frente com inúmeros pensamentos que (não todo mundo, mas eu especificamente) tento abafar ultimamente. Sabe o lance do “não quero pensar nisso”? Sempre era muito difícil pra mim, eu sempre fui bastante ansiosa, daquelas que sofria com antecedência, que morria esperando respostas pras coisas que eu falava. De alguma maneira (não rola me perguntar qual, se eu tivesse a fórmula eu ficaria rica!), eu consegui ultrapassar isso e hoje consigo não ficar remoendo tanto as coisas.

Aí que estou aqui. Às vésperas (véspera, literalmente!) do meu filho nascer. Não estou ansiosíssima, consigo sentar, me concentrar e respirar. Mas percebo que também não estou no estado normal pq o tempo todo procuro algo para comer, o sono e o cansaço que me acompanharam ao longo dos últimos dias não parecem querer dar as caras e me sinto ligeiramente agitada.

Decidi que seria importante passar um tempo pensando em como as coisas serão. Não que eu não tenha feito isso ao longo desses nove meses. Nunca dá certo, claro, mas é um exercício que sempre acaba aparecendo. Eu penso bastante nas coisas práticas, aquelas que eu (NÃO) sei fazer, mas que no fim, mesmo que Dan tenha que sofrer um pouquinho no início, serão aprendidas. Racionalmente sei disso, mas dá medo. Eu fico apreensiva mesmo é com a pressão que se coloca sobre as mães, que a partir deste momento vc precisa se desconstruir e renascer como mulher que anseia por uma maternidade que te torna completa. Como se vc deixasse de existir enquanto indivíduo e passasse a existir como instrumento pra criação de alguém. No limite, vc tem que dar um pause (ou um stop) na sua vida. Vc e só vc. Ninguém pode suprir seu papel. Se der sorte – e eu espero que eu a tenha – o pai “ajuda”. Veja, ajudar é problemático: não é posto como obrigação, mas como boa vontade! Há um movimento muito pequeno de pais que realmente compartilham a criação dos filhos. Dos depoimentos que eu ouvi, o homem está lá, saindo todos os dias pra trabalhar, pra almoçar, tomando cerveja normalmente, talvez no bar com os amigos, fazendo planos, vida que segue. Muda a vida? É lógico que muda. Mas o impacto é outro. Não pq não existe um processo que homens não podem optar por vivenciar, mas pq existe um componente social que é fortíssimo.

A maternidade como dádiva é uma ideia construída e acaba dando tão certo pq as mulheres aprendem desde sempre (na real, desde o século XVI, se não me engano, com a reformulação do conceito de família) que este é o verdadeiro sentido da vida.

Daí tem licença maternidade (ótimo, pq bebês precisam realmente serem amamentados, mas bebês também precisam de outras coisas!), tem mulher que opta por não trabalhar, tem a criação do sentimento de culpa, enfim. Milhões de mecanismos que atuam na manutenção do status quo. E aí aquele lance de que as coisas precisam ser feitas. E quem está lá vai fazer. Quem está lá em geral é a mulher. Assim, não é que as coisas precisam ser feitas pela mãe, é que as coisas se articulam pra que a mãe TENHA que fazê-las. Isso me incomoda muito e precisa ser pontuado, apontado e questionado em qualquer oportunidade.

Eu não sei como serão as coisas aqui. Mas não acredito que serão diferentes dos relatos das amigas ou de comentários desabafos em grupos de maternidade na internet. Isso faz com que eu me sinta frustrada… Eu nunca quis ser mãe. E isso me assusta. Não acho que meu filho será menos amado por isso, nem que eu serei menos mãe por admitir isso. A gente aprende a ressignificar circunstâncias pra tornar mais tolerante – ou agradável, ou prazeroso, ou feliz – viver com elas. Mas vale sempre se perguntar o que dá pra fazer pra correr atrás das coisas que importam pra vc e das que te fazem felizes também. Penso que, afinal, meu filho será minha companhia e que vai caminhar comigo independente da estrada.

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Marcela Santander

Marcela, 30 anos. Pisciana com ascendente em gêmeos e lua em escorpião. Mãe, feminista, ser político. Interessada em estudar antropologia e convenções sociais. mais?