É o Dan… ainda bem!

Este post é daquelas reflexões que tenho feito há bastante tempo e que falta colocar as ideias em perspectiva. E cada dia com mais clareza, o que é ótimo, pois me ajuda a consolidar o que eu quero passar pro meu filho, pq quando soube que era o Dan, escrevi aqui o quanto eu fiquei bastante insegura com relação aos desafios que se apresentariam pra mim. Fiquei até um tanto frustrada no início; eu sempre quis adotar uma menina, me via mãe de uma menina, sabia o que queria ensinar a uma menina, todas essas coisas empoderadoras seriam postas em prática. Mas essas todas eram preocupações de uma grávida… Eu também tinha medo de não saber segurar o bebê, de trocar fralda, do choro, da amamentação, etc, etc, etc. Na “vida real de mãe” as coisas funcionam numa dinâmica (bastante!) diferente. Se por um lado eu argumentei lá no post saber as coisas que gostaria de ensinar a uma menina, por outro lado percebo empiricamente que é impossível dissociar teoria e exemplo. Ou seja, se eu não sou capaz de lidar com questões como minha própria imagem corporal, como peso, cabelo ou estrias, não importa o quão desconstruído seja o meu discurso, ele não vai ser efetivo.

Enquanto mulher eu conheço boa parte dos dilemas que permearão a vida de muitas meninas (muitas porque aqui cabe um recortão racial e social, claro). Ter passado por eles e, hoje, conseguir lidar com a maior parte talvez me ajude a escrever, a falar e a fortalecer outras mulheres. Talvez tenha também algum tipo de impacto em certos homens.  E é super importante, é super válido. Mas eu ainda estou aqui, lidando com meus próprios dilemas. Isso não quer dizer que mães que enfrentam seus dilemas não criem filhas empoderadas, seguras e autoconfiantes, mas é outro desafio e eu particularmente acho que ficaria capengo, que eu não daria muita conta.

Até pq, é isso, a gente aprende junto com o filho e acho que é sim difícil criar um filho, menino ou menina, num mundo que ainda é machista. Dificuldades, não maiores nem menores, mas diferentes.  O machismo, na prática, também está presente na vida dos homens e implicou, pra mim, numa série de reflexões acerca disso, me obrigou a enxergar este tema a partir de novas e diferentes perspectivas.

O Dan nasceu um menino. Ele como um menino tem uma porção de privilégios – e sim, ele vai ganhando mais “pontos na corrida de privilégios” na medida em que há outras questões envolvidas. E meu maior desafio sendo mãe de um menino é garantir que ele tenha consciência destes privilégios e que não os usufrua em detrimento das perdas ou do sofrimento de outras pessoas. Mas ele não acaba aí. Meu conhecimento sobre meninos é apenas sobre o que eles não devem ser, e foi (é!) desafiador pensar o machismo a partir de um novo ponto de vista.

Tem dois tópicos bastante pontuais que eu queria trazer pra ilustrar essa questão da “masculinidade” e que venho amadurecendo desde que soube que Dan viria – para além da formação integral e etcs que ficam pra um próximo post. Primeiro, ainda grávida, assisti ao documentário “The mask you live in” (tem no Netflix!) e, embora não seja o foco deste post, recomendo bastante pras mães/pais de meninos, mas não só, pra sociedade at all. O documentário explica um pouco da construção – eu diria da manufatura mesmo, de uma masculinidade que deve ser sempre enaltecida e colocada em oposição ao feminino, que resulta na objetificação da mulher e na tão falada (acho é pouco!) “cultura do estupro”. O segundo assunto que tenho pra abordar é sobre a pornografia. Eu nunca fui grande entusiasta, mas era aquilo, consome quem quer e blablabla. Não mais. Este texto foi um divisor de águas na época em que o conheci e me levou a procurar mais sobre o tema. Ele explica, basicamente, como a masculinidade, enquanto pensada e construída coletivamente, é influenciada pela pornografia – com papel preponderante, sobretudo, na adolescência de milhões de meninos. E vai por caminhos que explicam a objetificação, a sexualização e a exploração de mulheres. Daí nasce a violência, daí nasce o aliciamento, daí nasce a pedofilia. E temos a naturalização disso tudo.

Bem foda. Bem além de todas as minhas preocupações feministas antes do Dan.

Quando eu soube que era o Dan eu tive medo porque não sabia como criar um menino, hoje eu agradeço muito o universo por isso. Porque, enquanto mulher, ainda há muitas coisas pra eu ainda dar conta em mim mesma. Delas, grosso modo, eu tenho consciência, ou alguma noção. O Dan me proporciona um embate contínuo com meus próprios “espantalhos” – como diria Strathern, “essas criaturas dos vieses”. Acho foda pensar em tudo isso pra tentar dar conta de criar um menino, mas acho pior ainda passar a vida toda alheia a todos esses problemas na sociedade. Não fosse o Dan, eu passaria.

Sobre as “corridas de privilégios”, tem o vídeo americano, a versão brasileira e a versão racial. Todos são ótimos pra reflexão 😉

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Marcela Santander

Marcela, 30 anos. Pisciana com ascendente em gêmeos e lua em escorpião. Mãe, feminista, ser político. Interessada em estudar antropologia e convenções sociais. mais?