Seis meses. Meio ano.

Quero escrever. Quis escrever inúmeras vezes, sinto que perdi tantos momentos, tantas coisas por não tê-las posto em palavras num papel ou aqui, ainda que tenha fotos. Os sentimentos, os pensamentos, eles não voltam. Escrever pra mim é terapêutico e mágico, me dá um prazer cheio de alívio, mesmo nas sensações desagradáveis. Nas boas, me possibilita voltar no tempo e reviver tudo o que senti. E vários desses momentos ficaram na cabeça, não confio na minha memória, uma pena, um arrependimento. Agora vale textão?

Pq é muito complicado se reencontrar depois de ter um filho. Eu não reconheço meu corpo que insiste em não voltar ao que era, meu cabelo parece estar em todos os lugares de casa, exceto na minha cabeça, sair de casa é uma aventura que demanda alguma preparação, não consigo organizar meu tempo e voltar pelo menos às aulas de francês, só vejo olheiras no meu rosto. Por outro lado, eu o vejo e penso que tudo a pena, afinal. Porque vai passar tão rápido e pra todas as tantas coisas que eu ainda quero fazer na vida, terei alguém sempre do meu lado. Todas as coisas agora parecem mais interessantes se eu conseguir fazer junto dele.

Pq nosso tempo junto, assim, todos os dias o tempo todo, está acabando. E se em algum momento eu quis isso, e eu quis várias vezes, hoje só quero que o tempo engatinhe, bem devagar, pra que ele não acabe, pra que eu possa ficar mais tempo só observando todas as coisas que Dan aprende e as que o divertem. Pra que eu possa ser a pessoa do lado dele, que vai atendê-lo se ele precisar ou se ele só quiser um colo, pra ficar perto. Sei que ele vai ficar com a melhor pessoa do mundo, mas uma parte de mim gostaria muito de poder se fazer presente.

Pq olho pra ele deitado na cama, dormindo, e só consigo pensar que foram os melhores meses da minha vida. A despeito de toda a dificuldade que não parece ter fim, cada vez que nossos olhares se cruzam eu vejo um amor que é tão genuíno, eu me sinto tão necessária e tão querida. Dizem que os filhos não retribuem o amor de suas mães, pensei isso várias vezes ao longo da vida. Mas, no limite, acho que somos nós quem passamos o resto da vida tentando retribuir olhares, sorrisos e carinhos tão inocentes e despretensiosos.

Pq foram seis meses. Seis meses bastante ambíguos, cansativos e revigorantes, extremos de felicidade e momentos de querer sumir… Conseguimos o primeiro desafio dessa nossa parceria linda, seis meses de amamentação exclusiva. Teve apoio, claro, do meu companheiro, mãe, família, amigos. Mas fomos nós que insistimos, que fizemos acontecer, que nos entendemos. E aqui estamos, com 9.9kg, baby saudável e cheio das dobrinhas! Agora seguiremos até um ano tendo o leite materno como principal alimento, pq é incrível pensar que eu sou capaz de nutri-lo e fazê-lo se desenvolver de forma tão linda. Se antes de tê-lo em meus braços eu tinha medos e dúvidas, hoje tenho mais que certeza de que somos capazes.

E eu gostaria de escrever ainda algumas palavras sobre o quão difícil e complicado foram esses seis meses, pq não rola só romantizar a maternidade. Mas é que enquanto escrevo essas linhas pra celebrar, Dan já acordou duas vezes. Foda, fica pra um outro dia.

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Marcela Santander

Marcela, 30 anos. Pisciana com ascendente em gêmeos e lua em escorpião. Mãe, feminista, ser político. Interessada em estudar antropologia e convenções sociais. mais?