Uma conversa (inicial) necessária

Este post foi inspirado por este vídeo da Paolla, da página Não Sou Exposição. Recomendo grandemente que ele seja assistido!

Fiz ginástica olímpica mais velha, dos 10 aos 12 ou 13 anos. Eu era bastante razoável, ganhei umas medalhinhas e talz. Mas eu não era padrão; eu era uma garota grande (pasme! mas isso explica minha altura hoje), não era magrinha, delicadinha, whatever. Por incontáveis vezes eu era cobrada por não estar no peso “adequado” por uma das professoras. Era humilhante, era triste e era um momento que por si só já seria delicado, confuso e cheio de neuras, porque inerente a este processo de pré-adolescência que prevê algum amadurecimento pro qual criança nenhuma tá pronta – ou não deveria estar. Óbvio que essa receita deu errado!

Eu dizia pra minha mãe que queria morrer, emagrecer, virar anoréxica, qualquer coisa. Eu fui a médicos e nutricionistas , não tomei remédios – ACHO!, mas eles me prescreviam dietas que me faziam chorar só de ler, não lembro se nesta época da ginástica ou um pouco depois. Eu não comia mal – eu não como muito mal até hoje, ainda que às vezes eu enfie o pé na jaca. Hoje, 20 anos depois, eu vou sintetizar a história: já tive num peso legal, já estive mais gorda (na gravidez, normalmente nunca estive tão enorme quanto hoje!), já tive 30 – TRINTA – quilos a menos. E nunca estive feliz, satisfeita ou desencanada com meu corpo. Eu nunca gostei da imagem que eu vi no espelho. E eu era uma garota muito bonita, se eu olho hoje, percebo isso.

2013 ou 2014. Magra, com cara de doente e não muito satisfeita, obviamente.

Ao longo desses anos todos e desses processos de engordar / emagrecer / querer emagrecer mais, eu fiz uso de uma porção de substâncias, técnicas loucas, dietas (e eu sempre fui ruim com as dietas) e atividades físicas excessivas. Eu demorei anos pra desencanar um pouco e tirar esse tema do primeiro plano. E assim, por mais “desconstruidona” que eu seja, simplesmente não consigo não me importar!

Paolla explica no vídeo o porquê das meninas engordarem repentinamente ao atingirem uma determinada faixa etária / processo de desenvolvimento. Mas ela coloca também uma pergunta pertinente. Por que mulheres querem emagrecer, quando estão saudáveis e ativas?

Minha hipótese, obviamente, privilegia a socialização. Mulheres querem emagrecer porque aprendem desde sempre e em todos os lugares que mulheres bonitas são as do padrão. E aí você ganha pontos pelas características desejáveis que possui, pontos que te permitem avançar nessa escala do que é socialmente aceito como belo. O problema não é apenas fazer uma crítica rasa de que esses padrões são inalcançáveis. O problema é que as pessoas são todas diversas e são postas em escalas comparativas o tempo todo. Vc é loira, vc é ruiva, aquela ali é gorda, a outra negra, o nariz maior, menor, alta, baixa. Sabe? O problema é que estes padrões não mensuráveis são postos em perspectivas comparativas.

Essa ainda é uma uma visão muito rasa, muito, muito distante ainda de qualquer formulação com um viés mais feminista, que é pra onde esse assunto certamente nos leva. Eu posso também avançar um pouco mais nessa linha e inroduzir que a relação mulher x peso é ainda mais grave que essas comparações entre indivíduos, porque permeada por uma política de controle de corpos, especialmente corpos femininos. Mas o desenvolvimento dessa ideia fica pra uma próxima reflexão.

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Marcela Santander

Marcela, 30 anos. Pisciana com ascendente em gêmeos e lua em escorpião. Mãe, feminista, ser político. Interessada em estudar antropologia e convenções sociais. mais?